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Um método funcional e não invasivo para avaliação do encéfalo em cães e gatos

*Por: Dr. Thiago Gonçalves

A Ultrassonografia Transcraniana (USTC) é uma técnica de imagem funcional e anatômica que utiliza ondas sonoras de alta frequência para avaliar estruturas encefálicas, fluxos sanguíneos e características teciduais do cérebro de forma não invasiva e indolor.

Diferentemente da ultrassonografia convencional, aplicada em órgãos abdominais ou musculoesqueléticos, a USTC é direcionada à região craniana, explorando janelas ósseas naturais (como as regiões temporais e occipitais) ou fontanelas persistentes em animais jovens, permitindo observar componentes internos do encéfalo com excelente definição.

Com o avanço dos transdutores de alta sensibilidade e o desenvolvimento de protocolos veterinários específicos, a ultrassonografia transcraniana tornou-se um exame de grande valor na neurologia veterinária moderna, integrando-se a métodos como o eletroencefalograma (EEG) e a ressonância magnética (RM).


O que o exame avalia

A USTC fornece informações morfológicas e hemodinâmicas, permitindo examinar em tempo real:

Arquitetura do parênquima encefálico: ecogenicidade, presença de áreas hipo ou hiperecogênicas indicativas de edema, hemorragia, infarto ou lesões expansivas.

Fluxo sanguíneo cerebral: por meio do Doppler colorido e pulsado, avalia-se a perfusão cerebral e as velocidades de fluxo nas artérias cerebrais média, basilar e carótida interna.

Ventriculomegalia e hidrocefalia: mensuração e monitoramento do sistema ventricular, detectando dilatações precoces.

Desvios de linha média: sugestivos de efeito de massa, tumores, abscessos ou hematomas intracranianos.

Espaços subaracnóideos e cisternas: avaliação indireta de hipertensão intracraniana e inflamações meníngeas.

Além disso, a ultrassonografia transcraniana pode documentar pulsatividade anormal, hiperemia reativa ou redução de perfusão, permitindo inferir alterações funcionais sem necessidade de sedação ou anestesia.


Vantagens clínicas e técnicas

1.⁠ ⁠Exame totalmente não invasivo e indolor
A USTC é realizada com o paciente em estação ou decúbito, geralmente sem necessidade de sedação, sendo bem tolerada por cães e gatos, inclusive em ambiente ambulatorial.

2.⁠ ⁠Avaliação em tempo real do encéfalo vivo
O exame permite observar alterações dinâmicas, como perfusão, pulsatividade arterial e deslocamento tecidual, informações que não são fornecidas por métodos estáticos de imagem.

3.⁠ ⁠Complementaridade com o EEG e a RM

O EEG demonstra a função elétrica cerebral;

A USTC revela a morfologia e a perfusão;

A RM define a anatomia detalhada.
A integração desses três métodos proporciona uma visão abrangente: anatômica, funcional e fisiológica do sistema nervoso central.

4.⁠ ⁠Segurança para pacientes críticos
Como não envolve radiação nem contraste, pode ser aplicada em neonatos, geriátricos, cardiopatas, nefropatas e animais internados sob suporte intensivo.

5.⁠ ⁠Custo acessível e disponibilidade imediata
O exame pode ser realizado à beira do leito (bedside), permitindo avaliações rápidas em ambiente hospitalar, o que favorece decisões clínicas ágeis.


Indicações clínicas mais comuns

A ultrassonografia transcraniana é indicada em uma ampla gama de condições neurológicas, incluindo:

Suspeita de hidrocefalia ou ventriculomegalia
→ permite identificar e monitorar o aumento ventricular, acompanhar resposta ao tratamento e avaliar a necessidade de drenagem.

Traumatismo cranioencefálico (TCE)
→ detecta deslocamentos de linha média, hemorragias, edema e alterações de perfusão cerebral.

Avaliação de encefalites e meningites
→ demonstra áreas hipoecogênicas difusas e hiperemia em regiões inflamadas, correlacionando-se com o quadro clínico e EEG.

Distúrbios de consciência e coma
→ ajuda a identificar causas estruturais ou hemodinâmicas de alteração mental aguda, inclusive em pacientes instáveis que não podem ser anestesiados para RM.

Neoplasias intracranianas e processos expansivos
→ revela massas, cistos ou abscessos com efeito de massa e desvio de linha média.

Síndrome de disfunção cognitiva
→ pode mostrar redução difusa da perfusão cortical e atrofia ventricular progressiva, auxiliando no acompanhamento evolutivo.


Aspectos técnicos

Duração média do exame: 15 a 30 minutos

Posição: decúbito lateral ou dorsal, dependendo da janela acústica

Transdutores utilizados: microconvexos de 5–8 MHz (adultos) ou lineares de alta frequência em neonatos e cães de pequeno porte

Modos de aquisição: B-mode, Doppler colorido, Doppler pulsado e M-mode cerebral

Janelas acústicas principais: temporal, occipital e, em filhotes, fontanelas abertas

O exame é indolor e seguro, e pode ser repetido periodicamente para monitoramento da evolução clínica.


O que o exame elucida

A ultrassonografia transcraniana auxilia na correlação entre achados clínicos, hemodinâmicos e morfológicos, elucidando questões como:

Há edema cerebral ativo?

Existe efeito de massa ou desvio da linha média?

O fluxo sanguíneo cerebral está adequado?

O quadro é funcional, inflamatório, vascular ou expansivo?

Essas respostas ajudam o neurologista a definir a conduta terapêutica imediata e a decidir sobre a necessidade de exames complementares (RM, coleta de líquor, EEG).


Conclusão

A Ultrassonografia Transcraniana Veterinária é um exame dinâmico, seguro e acessível, que permite avaliar o encéfalo em tempo real, fornecendo dados sobre morfologia, perfusão e integridade funcional.
Por ser não invasiva e frequentemente realizada sem sedação, tornou-se uma ferramenta indispensável na rotina da neurologia veterinária.

Associada ao Eletroencefalograma (EEG) e à Ressonância Magnética, forma um tripé diagnóstico que possibilita uma compreensão completa do sistema nervoso central, aumentando a precisão dos diagnósticos e a segurança terapêutica.


Referências (formato ABNT)

1.⁠ ⁠CULICOVI, C. et al. Transcranial ultrasonography in dogs: technique and clinical applications. Frontiers in Veterinary Science, v. 10, 2023.

2.⁠ ⁠HUDSON, L. C.; DE LAHUNTA, A. Clinical Neurology in Small Animals: Localization, Diagnosis and Treatment. Cornell University Press, 2022.

3.⁠ ⁠D’ANJOU, M. A.; PENNY, D. Atlas of Small Animal Ultrasonography. 2. ed. Wiley-Blackwell, 2015.

4.⁠ ⁠KRAMER, M. et al. Transcranial color-coded duplex sonography in small animals. Veterinary Radiology & Ultrasound, v. 54, n. 5, 2013.

5.⁠ ⁠COOK, L. B.; HECHT, S. Noninvasive imaging of the canine and feline brain: ultrasonography, CT and MRI. Vet Clin Small Anim, v. 44, n. 6, p. 1187–1203, 2014.

6.⁠ ⁠LYON, E. et al. Integration of EEG and Transcranial Ultrasonography in Veterinary Neurology. Front. Vet. Sci., 2024.

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